25 de jan de 2010


Árvore, celeiro e pedaços - PARTE 2

Por BRUNO


                                  Para ouvir: "Real Desire" de Dan Auerbach





A casa de Candance era toda de madeira, inclusive o assoalho, e por ser tão velha, o ranger dos degraus a metros da mesa de jantar anunciavam as visitas. Quase todas eram inesperadas, mas para Maurie todas eram desagradáveis. Às vezes, ele dizia que era melhor um tornado levar tudo aquilo só de um sopro para acabar com todo aquele tormento. Três batidas na porta foram ouvidas. Laurie, a namorada do Jeff, atendeu e para seu desprazer, era William.

- Candance está? - ele perguntou. 

Antes mesmo de responder com seu ar insosso e seu sotaque carregado, Laurie foi interrompida pelo pai. De maneira brusca foi para outro cômodo, pisando firme o velho assoalho deixando os dois a sós.

- Caddy - era assim que Maurie a chamava - está ocupada. Tem coisa a fazer.

- Volto depois... - William disse.

- Espero que não - retrucou Maurie.

William foi embora.

Maurie não gostava muito de William e até mesmo o desprezava. Ninguém sabe ao certo, Maurie era muito reservado. Ouvi dizer que era rixa antiga entre as famílias vizinhas e tudo isso começou lá por volta da época em que Candance e William nasceram - deve ser por isso que ele desconta no garoto? Eu não sei. Maurie também não era gente boa. Pouca gente em todo aquele lugar era boa. O Maurie, depois que William se foi, ficou matutando uma maneira de afastá-lo de Caddy enquanto mastigava. Não era sutil de forma alguma. Tinha cerca de 40 anos, só que a vida tratou de deixá-lo com uma aparência muito mais velha que se acentuava com sua maneira rústica de se vestir. Ainda assim implicava com William e suas botas sujas de barro.

Ao cair da noite ele a viu. Estava de banho tomado e sua pele parecia refrescada e usava um leve vestido amarelo que flutuava ao vento.

Candance queria saber por que a procurara.

Queria vê-la, só isso Candance. Vamos ver as estrelas de novo? Ou subir na árvore. Na nossa árvore. O que acha?

Candance fez que sim com a cabeça.

Não havia escurecido por completo, o que beneficiou a escalada. No topo da árvore o vento estava mais forte e os cabelos loiros de Candance dançavam de acordo com a música soprada em seus ouvidos.

Foi lá de cima que William viu um carro se aproximando pela estrada que dava na cidade. Ambos desceram dos galhos e ficaram a observar o veículo. E não eram apenas os dois, qualquer coisa nova aguçava a curiosidade da vizinhança, principalmente um carro tão luxuoso. O carro aproximou-se dos dois e foi freando devagarzinho. Dentro dele havia um motorista de cabelos escassos e oleosos, cara cheia e ar bonachão; no banco de passageiro havia um senhor grisalho com nariz pontudo, magro que só ele; e no banco traseiro havia um jovem branco de corpo lânguido, feição frágil e bigode ralo. Acompanhado de uma cartola elegante e protuberante e terno bem cortado, ficou a fitá-los estáticos na beira da estradinha que dava acesso ao vilarejo.

- Viemos da cidade e gostaríamos de saber... hã... só um momento - o velho magro e narigudo o interrompeu entregando um papel de jornal amassado. - Bem - disse ele voltando sua atenção aos jovens - temos uma informação a respeito de vendas de propriedade. Sabem de alguma coisa?

William disse "Acho que é a...", mas foi interrompido por Candance que tapou sua boca lançando-se à frente num movimento inesperado. Ele ficou aturdido e os homens dentro do carro estranharam o comportamento da menina. Inclusive o garoto, que a observava inquieto.

Candance disse que eles não sabiam de nada e com seus olhar castanho de tarde chuvosa obrigou William a concordar.

- Tudo bem, então - disse o motorista. Vamos continuar a procurar, obrigado pela atenção.

O carro continuou seu caminho, não deu ré e ficou a andar bem devagar pelos quarteirões de terra seca e poeira subindo à superfície. No banco de trás do carro o garoto ficou escorregando até a porta na medida em que se distanciavam dos dois adolescentes na beira da estrada. O segundo a olhar a terceira que observava o primeiro. William quis saber o porquê da atitude de Candance.

E Candance disse que a propriedade que procuravam era a de seu pai que anunciou nos classificados a venda de sua fazenda na última vez que visitou a cidade. E Candance não queria ir embora dali, não queria deixar tudo pra trás.

William ficou desesperado e Candance chorou. Em meio à angústia ele desabafou o que estava sufocado dentro de si por toda a vida.

Você não pode ir embora, Candance. O que será de mim. Você é a única pessoa que conheço.

Candance escondia os olhos, mas as lágrimas atrevidas escorriam pelas mãos.

Eu te amo Candance! Sei que nunca havia dito isso, mas pensei que você sabia. Mulher sempre sabe não é? E meninas? Achei que você também queria isso. Oh, me desculpe, estou chorando feito um menino bobo. Mas veja Candance. Olhe! Sou homem! Posso levá-la comigo e viveremos juntos! Vê essas mãos? Elas trarão sustento para nossa casa! Para nossos filhos! Mas e se seu pai vender a fazenda... Oh Candance...

E Candance chorou ainda mais. De repente começou a correr. Para o celeiro.

William a seguiu. Agora estava completamente escuro e o céu estrelado repousava feito lençol na grama rala enquanto as botas sujas seguiam os rastros dos pezinhos descalços. Eles sempre foram cuidadosos para não pisar nas luzes para não incomodá-las. Pisavam onde não resplandeciam. O vento uivou mais forte e as folhas do topo da árvore se desprendiam sem rumo apagando as estrelas por caminhos aleatórios.

As pegadas terminaram na portinha, William entrou pisando devagar e viu Candance deitada na palha, iluminada pela luz atravessando as frestas.

Candance lembrou-o que próximo dali ele havia dito que a luz da lua era na verdade do sol e que a lua não era como os vagalumes e vagalumes eram abelhas que brilhavam.

William caminhou indeciso e repousou seu corpo sobre o dela e ficaram ambos a se olharem. Tudo já estava subentendido. Bastava-lhe abrir um por um os botões que fechavam seu vestido amarelo, descê-lo enquanto beijava seus braços seus seios sua barriga e quando despi-la totalmente, beijá-la na boca e penetrá-la. O celeiro inteiro acompanhava seus movimentos e a luz da lua agora parecia um farol através da janelinha, indicando as embarcações do leste ao oeste, do sul ao norte e o percurso do líquido que Candance sentira escorrer pelas pernas após uma breve dor, todos os caminhos guiados pelo Cisne.

O celeiro parou embaçado às vistas de William que jamais havia sentido uma sensação tão boa. Os odores confundiam-se com o gosto doce na boca e seus dedos formavam sombras escuras na pele clara de Candance. Ela adormeceu ainda em seus braços. O braço direito segurava sua cabeça pela nuca enquanto os dedos de sua mão esquerda acariciavam sua testa e ajeitava os cabelos loiros de forma que todo o rosto permanecesse sereno. Ele apenas a contemplava. As horas deram voltas rápidas no relógio. O sol completou seu ciclo e bateu às portas do horizonte novamente. A árvore mantinha seus pólos iluminados e escuros e permaneceriam assim por toda a manhã.


Continua...

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BRUNO é apaixonado pelas obras de William Faulkner
Créditos de imagem: Bildmacherin

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